Entrevista Before the Rain

Há pouco mais de um mês, havia entrado em contato com o baixista Pedro Daniel para uma possível entrevista com essa banda que vem despontando no cenário doom, e após enviar as questões fui informado que quem iria respondê-las seria o guitarrista Valer Cunha, que nos atendeu prontamente. Nesta entrevista ele nos fala sobre o que aconteceu com a banda desde o lançamento de seu debut até a composição de seu mais recente trabalho, Frail. Nos dá também o seu ponto de vista em relação aos downloads ilegais, sobre a cena doom lusitana.

 

Se passaram 04 anos desde o lançamento de One Days Less até Frail. O que se passou dentro desse tempo?
Valter Cunha: Viva Rodrigo, desde que saiu o One Day Less aconteceram várias coisas: promovemos o disco, mudou grande parte da formação, fizemos um grande disco (Frail) e conseguimos contrato com um selo histórico como a Avantgarde Music. Como sempre nesta banda: NADA foi fácil.
De uma forma um pouco mais detalhada: logo após o lançamento do “One day less” trocamos de guitarrista e baterista, e como tal algum tempo teve que ser investido para os novos elementos aprenderem a tocar as músicas, de forma a podermos promover o álbum ao vivo. Passado alguns meses trocamos novamente de baterista, no entanto com a entrada do Joaquim Aires para a banda, toda a dinâmica da banda mudou. Ao contrário de outros baterista com quem trabalhei no passado, o Joaquim é uma pessoa que se envolve bastante no processo de composição das músicas, para além de ter demonstrado sempre um grande interesse em melhorar a banda em todos os aspectos.
Entretanto estivemos cerca de ano e meio a compor, e a gravar maquetes para aquele que viria a ser o “Frail”, e já na altura que estávamos para terminar a pré-produção do disco separamo-nos do nosso antigo vocalista Carlos D’Água. Estamos falando de cerca de 3-4 semanas antes de entrarmos em estúdio. Na altura colocou-se a hipótese de adiar as gravações, mas tínhamos tanta fé nestas músicas que decidimos começar a gravar o disco, que entretanto havíamos de resolver a questão da voz. Como tinha conhecido o Gary, num concerto que fez com Morgion em Portugal em 2003, lembrei-me de saber o que estava a fazer de momento. Soube então que estava a trabalhar num projeto chamado Dustflow, mas que isto seria um projeto essencialmente de estúdio.
Perguntei-lhe então se estaria interessado em gravar o disco conosco a título de músico de estúdio, pelo que ele concordou prontamente. Acontece que quando recebemos as demos de voz que ele fez para os nossos temas achamos que tinha demasiada qualidade para ser apenas um músico convidado, pelo que o convite foi extendido para membro efetivo de Before The Rain, o qual ele se sentiu muito honrado e orgulhoso em aceitar.

 

Gary Griffith cantava no Morgion, e o que ele acrescentou para a banda?
Valter Cunha: O Gary, além de um grande amigo é um excelente músico que trouxe uma abordagem muito distinta do que estávamos habituado. Parece-me que ter um oceano a separar as pessoas faz que toda a sua abordagem para com a música seja diferente. Ao contrário do que aconteceu com o “Frail”, o próximo disco (referido na banda como o vol.III) será composto com a voz do Gary em mente, e como tal iremos tirar ainda mais proveito de todo o seu talento.

 

Faz pouco tempo que Frail foi lançado, e como está a aceitação do álbum?
Valter Cunha: Para ser sincero ainda não recebemos muito feedback em relação ao disco, exceto umas poucas reviews de algumas publicações online.
Será mais sensato aguardar mais alguns meses para poder responder a esta questão. No entanto as poucas reviews que saíram são bastante encorajadoras…

 

Como está a relação de vocês hoje, ele (Gary) mora nos Estados Unidos e eventualmente voa para Portugal, ou ele já estabeleceu residência?
Valter Cunha: O Gary continua a residir no Estados Unidos, no entanto falamos todas as semanas e já estamos a trabalhar em músicas para o terceiro álbum.
A internet é uma excelente ferramenta de comunicação. Sempre que temos datas marcadas para tocar fazemos alguns ensaios com ele cá, alguns dias antes dos concertos.

 

Vi em algumas fotos que Gary também toca guitarra em algumas músicas, acredito eu que além de pesado, o som também fica bem melodioso…
Valter Cunha: Existem músicas no albúm com 4 e 5 linhas distintas de guitarra, como é obvio ao vivo é impossível reproduzir tudo isso, e tendo um elemento na banda, que para além de um excelente vocalista, também é um guitarrista, seria um disparate da nossa parte não tirar proveito disso. E como tal, nas músicas que foram gravadas com mais layers de guitarras o Gary toca guitarra também, de forma a podemos ter uma versão ao vivo mais próxima da versão gravada em estúdio. Trata-se apenas de uma questão de gerir os recursos disponíveis…

 

Lembro de uma conversa que tivemos pouco tempo atrás, onde me questionou sobre as pessoas conhecerem o Before the Rain aqui no Brasil. Respondi que sim, e que grande parte dessas pessoas conheceram a banda devido aos vazamentos na internet. Qual a sua opinião sobre isso?
Valter Cunha: Possivelmente essa entrevista foi feita ao Pedro Daniel (baixista), e não a mim. No entanto tenho sérias dúvidas que existam muitas pessoas no Brasil que conheçam o nosso som, mas essa é apenas a minha opinião, era bom sinal estar errado. No que diz respeito aos downloads ilegais de música na internet: eu sou extremante crítico em relação a isso. Ao efetuar o download de um disco, que custou imenso dinheiro à banda a gravar, que perdeu imenso tempo a compor, gravar, mixar e masterizar; banda essa que teve o cuidado de criar um artwork condigno para a sua obra; ver todo este trabalho e investimento reduzido a 3 clicks num site, para posteriormente virem escrever em blogs, fóruns, etc… “ah… gostava mais do disco anterior, acho que agora está mais parecido com a banda X e com a banda Y”. Isto para mim não vale NADA, estas pessoas estão lentamente a matar a indústria musical, e quando falo em industria musical não falo de editoras e corporações, falo mesmo nos artistas, nos músicos que investem o seu tempo livre em fazer músicas, que investem para além de tempo, dinheiro em instrumentos, em concertos, em gravações… e isto para quê? Para fazerem download dos discos, sem nunca adquirirem o CD? Eu sou COMPLETAMENTE contra isto. Várias vezes por ano faço encomendas de CD’s, t-shirts de outras bandas, quando menos pessoas agirem desta forma, menos bandas (pelo menos de qualidade) irão existir de futuro a criar música…

 

Está para ser lançado um split 7″ com o Shape of Despair, como surgiu a idéia para esse material.
Valter Cunha: Já sou amigo do Jarno há algum tempo, e sempre falamos na hipótese de fazermos algo em conjunto. Logo após termos acabado de gravar o Frail, tínhamos já um conjunto de ideias para o terceiro álbum, e então surgiu a ideia de cada banda gravar uma música e lançarmos um split em vinil. Na altura equacionamos fazer uma cover também (visto que os Shape of Despair gravaram uma cover de Lycia), no entanto num único ensaio fizemos a “Somewhere not There” e achamos que a música tinha muito potencial, e optamos por esta música em vez de uma cover.

 

E esse split será apenas em vinil ou vocês pensam em lança-lo em formato mp3 também?
Valter Cunha: Acho pouco provável que o split venha a ser editado num outro formato para além do vinil…
(N.E.: Foram lançadas pouquíssimas cópias em cd, apenas 50)

 

Natalie Koskinen (vocalista do Shape of Despair) participa do cd, como se deu esse convite e como surgiu a ideia.
Valter Cunha: Algumas das músicas do “Frail” têm partes bastante atmosféricas, e de uma forma deliberada quis evitar o uso de teclados nessas partes, no entanto ficava sempre com a ideia que faltava ali um layer. A dada altura lembrei-me de falar com a Natalie e mostrar-lhe as músicas. Ela mostrou-se logo muito entusiasmada em participar no disco, e aquilo que era para ser a participação numa música extendeu-se para 3 músicas. Ficamos muito satisfeitos com o trabalho dela.

 

Gostaria que citasse 05 álbuns essenciais do doom que você considera. E qual o seu playlist atual.
Valter Cunha: Doom:
# My Dying Bride “Turn Loose the Swans”
# Anathema “Pentecost III” (não é um álbum, mas é de longe o melhor trabalho que eles já gravaram)
# Cathedral “Forest of Equilibrium”
# Paradise Lost “Gothic” + “Icon” (é impossível escolher um dos dois)
# Shape of Despair “Angels of Distress”

 

Playlist atual:
# Autumn’s Grey Solace (todos)
# Evoken “A caress of the void”
# Esoteric “The Maniacal Vale”
# Rome “Flowers from Exile”
# Cult of Luna “Somewhere along the highway” 

 

Como anda a cena metálica, doom em especial, aí em Portugal?
Valter Cunha: Não me parece que alguma vez tenha existido uma cena Doom em Portugal, existem tão poucas bandas neste estilo que me parece incorreto considerar que exista uma cena Doom em Portugal. No entanto tanto quanto sei que bandas como os Why Angels Fall estão a compor música nova para um lançamento futuro.
Desejo a melhor sorte para todas as bandas do estilo em Portugal, com sorte dentro de alguns anos poderemos considerar que Portugal tem uma cena Doom forte, ativa e com qualidade. Tirando isto o meio musical em Portugal é bastante medíocre, em parte pela nossa situação periférica na Europa, as bandas limitam-se a dar concertos para os amigos, com alguma sorte a fazer a primeira parte de uma banda estrangeira, tendo ainda que tocar em festivais locais a troco de um sanduíche e de um frango assado. É incompreensível a ausência de condições que dão aos artistas em Portugal. No entanto para as bandas estrangeiras tal já não acontece, é uma espécie de canibalismo que me faz ter pouco interesse em me envolver com a cena local.

 

Agradeço por essa entrevista e gostaria que deixasse suas últimas palavras para seus fãs brasileiros.
Valter Cunha: Espero que gostem do trabalho que temos vindo a desenvolver, e caso tal se verifique compres os CDs às bandas, não apenas a nós mas a todos. Sem o vosso apoio as bandas mais cedo ou mais tarde desaparecem. Peace!

 

Contato:
http://www.facebook.com/beforetheraindoom
http://www.beforetherain.net/

 

 

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Uma resposta para “Entrevista Before the Rain

  1. Então não é só o Brasil que valoriza mais as bandas e cultura de fora do país.. devemos ter herdado isso dos ancestrais de lá. É uma pena, mas é bom pensar que ainda há bandas que conseguem ter notoriedade em outros países, sem apoio do seu próprio.

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